sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O caminho do coração

Depois de trilhar durante trinta dias o Caminho de Santiago, na Espanha, encontrei-me com um amigo também peregrino na Serra da Estrela, em Portugal. Ele me perguntou, então, o que aprendi sobre espiritualidade. Disse-lhe o seguinte: Creio ainda não saber o que é espiritualidade, mas com certeza sei identificar as principais características que comprovam a sua existência.
Entre as características da espiritualidade consigo evidenciar cinco: mente aberta, felicidade, fé, tolerância e menos burocracia espiritual.
No nosso dia-a-dia tendemos a ficar muito focados em nossos próprios interesses, e isso nos tem impedido de olhar ao redor, perceber a dimensão da vida em sua totalidade e o papel que representamos nesse contexto. Por isso, e durante o Caminho de Santiago, vivi experiências que me permitiram ampliar minha visão. Uma dessas experiências foi a de encontrar pelas estradas, pedras em forma de coração. Na medida em que eu as encontrava e as distribuía a outros peregrinos, estes, por sua vez, começavam a encontrar as suas próprias pedras e, na medida que iam presenteando os outros, também eles começavam a encontrá-las. Aos poucos foi se formando uma rede que se interligava por quilômetros. Dizem que o Caminho de Santiago é o Caminho do Coração.
Outra característica da espiritualidade é a Felicidade, e ela só vem através do jogo de cintura, da flexibilidade no caminhar, não orientado pela quantidade de quilômetros que se havia programado cumprir, mas pela dinâmica do dia e a percepção das inúmeras e gratas surpresas que o Caminho nos reservava. Aprendi a desfrutar o Caminho, e por isso, ao chegar, fui tomado por emoções que eram um misto de fé e de felicidade por tudo o que havia vivido e pela humildade de ter compreendido melhor as minhas próprias fraquezas e fortalezas.
A Felicidade me trouxe Fé, a renovação da crença no que está por vir, naquilo que não vejo e nem por isso temo a existência. Fé que permite estar disponível para a vida, confiante nela, isento do germe da decepção, crendo no melhor de cada pessoa e situação. Por isto senti-me e sinto-me protegido por ela, a Fé. Mesmo quando senti dores musculares e outros sintomas causados pelo esforço físico, percebi que era a vida me sinalizando que deveria adotar um outro ritmo, dispor de mais tempo para descanso e para desfrutar da beleza ao redor.
O Caminho de Santiago é trilhado nas diferenças: do clima, dos tipos de estrada, dos albergues, da disposição do corpo neste ou naquele dia. Porém, as principais diferenças mostraram-se na convivência com as pessoas. Por meio da observação e do exercício da tolerância, imergi em situações em que procurava sentir-me na situação do outro, que, como eu, estava em busca da sua própria paz de espírito, em busca do sagrado em sua própria existência. Casais, solteiros, homossexuais, pessoas sozinhas, famílias inteiras iam se mesclando, em suas diferenças, para se tornarem, ao final de cada dia, simples peregrinos de um mesmo caminho, mais ou menos conscientes da sua própria existência.
Finalmente, andando no Caminho aprendi a desenvolver experiências espirituais sem burocracia. Aprendi a falar, a sentir e a estar com Deus como que diretamente, tal como ele se manifestava em cada momento. Descobri que ele pode estar em situações difíceis, fáceis, dentro de uma igreja, na beira de um rio, na solidão de cada encontro ou fazendo-se presente em cada instante solitário.Como um cego, que não pode definir o que é a luz, sentimos que a espiritualidade é apenas o sinal daquilo que brilha, mas que não podemos ver.

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